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24/05/2020

Eu sempre me senti alheia deste mundo

   Depois de inúmeras reflexões, nutridas por quase uma vida inteira (eu tenho vinte e um anos), deparei-me com uma percepção: eu sempre me senti alheia deste mundo. 
   Pois eu sempre me senti alheia desse mundo, como se fossem dois, um em que as coisas aconteciam e as pessoas interagiam, e outro, onde eu estava. Eu sempre, ou desde que eu me lembre, assumi mais a postura de observadora do mundo social do que de participante dele. Desde que eu me lembre, talvez desde os meus dez anos de idade, eu me vi bastante introspectiva, como se eu vivesse mais nos meus pensamentos, planejando cenários que eu gostaria de viver, do que o próprio desenrolar da vida real. Foi nesse momento, inclusive, que eu comecei a nutrir minha preocupação extrema com a percepção alheia, o que me levou a ser cada vez mais cautelosa, hipervigilante, e ansiosa. Ansiosa porque eu não estava satisfeita com a vida que eu tinha, com as pessoas com quem eu interagia - e não interagia, com a forma como eu interagia com as pessoas, e ansiava pelo instante em que essa satisfação me preenchesse. 
   Eu lembro até hoje de quando eu tinha mais ou menos uns dezesseis anos e desejava, com a ansiedade pulsando dentro de mim, que o tempo passasse tão rápido que, num piscar de olhos, eu já estivesse adulta, determinada, profissionalmente e pessoalmente bem estabelecida e estabilizada. Pois o futuro, aos meus olhos, parecia mais confortável do que o meu ensino fundamental, momento em que eu vivenciava a angústia da puberdade e das minhas paixonites platônicas por meninos que eu não conseguia nem encarar nos olhos. Faz muito sentido, também, que tenha sido nesse período que a minha comparação com as outras pessoas também começou a ser cultivada, comparando-me com as meninas que eu julgava serem minhas concorrentes em relação ao menino por quem eu era atraída, ou com aquelas que eu julgava serem tão bonitas, e eu, tão feia. Ou, inclusive, com aquelas meninas que eram extrovertidas, engraçadas, que atraía a companhia dos outros. Um outro fato interessante: minha comparação sempre foi, desde aquele momento, com meninas, mulheres, o que demonstra o impacto pessoal da competitividade feminina incentivada na nossa cultura.
   Pois bem, retomando a temática central: nunca senti que eu estava de fato vivendo a minha realidade. Isso porque eu sempre passei muito tempo da minha vida ou ruminando as minhas ações e a dos outros, ou planejando ações futuras, e criando expectativas sobre a dos outros. Minha cabeça sempre foi um espaço com um fluxo intenso de pensamentos, que correm tão rápidos. Afinal, a minha vida era toda planejada ali, na minha cabecinha, compensando os poucos riscos que eu assumia na minha vida concreta, com tanto receio de, depois, ser alvo da temida ruminação (mesmo que, na verdade, independente das minhas ações ela sempre viesse, assumindo o comando dos meus pensamentos). 
   A terapia, de fato, me ajudou bastante. Ajudou-me a tomar coragem para agir mais, em vez de ficar planejando ações. Mudar de lugar na sala de aula, no segundo colegial, foi uma demonstração emblemática dessa ajuda, pois eu tinha receio de que, fazendo esse movimento, saindo da primeira carteira e indo me sentar mais para trás, junto as meninas de quem eu me sentia confortável, fosse ser desconfortável e chamar atenção. Fosse talvez incomodar alguém? De fato, chamou atenção, mas não me importei.
   Sempre me vi sonhando que as relações vivenciadas pelos personagens nos filmes que eu assistia acontecessem na minha realidade. O melhor amigo que se apaixona pela amiga e começam um relacionamento, o badboy que se atrai pela mocinha nerd, as amizades-irmandades que pareciam superar todas as barreiras. E, apesar de ser uma fantasia extremamente romantizada, idealizada e totalmente afastada da realidade, eu a via, de alguma forma, nas relações entre as pessoas reais dos ambientes em que eu vivenciei. Pessoas começando a se relacionar, paqueras, namoros, intrigas, amizades descontraídas, íntimas, nos quais as pessoas realmente pareciam estar confortáveis. E, diante dessa perspectiva, eu estava ali, me sentindo uma alienígena, como se eu não tivesse nada disso. Minha autoestima em relação aos meus aspectos físicos era muito baixa e eu não me via satisfeita nas relações que eu tinha com as outras pessoas, sempre elevando patamares absurdos de performances desejadas e me decepcionando, com os outros mas, principalmente, comigo. 
   Eu escrevo tudo isso sabendo que eu ainda me sinto, em muitos momentos, dessa forma, me sentindo uma mera observadora nesse mundo. Aprendi a viver dessa forma, hoje é meu piloto automático, e, pois, é muito difícil eu me esquivar disso, apesar de, sim, eu conseguir. Tenho patamares de excelência para quase todos os meus relacionamentos e, por não serem alcançados, visto a idealização que eu nutro desde mais nova, me vejo muitas vezes estressada, frustrada. É um desafio, portanto, me desvincular desse papel passivo para tornar, realmente, protagonista da minha história, incluída no mundo social a qual pertenço. Abaixar as expectativas, viver mais do que pensar, ser menos exigente comigo, ser menos exigente com os outros, perdoar quando os outros não te entendem, perdoar quando você não entende o outro, dialogar e tentar entender o outro e se fazer entender. A imprevisibilidade faz parte do mundo, da vida, e não tem como se prender ao mundo racional buscando planejar todos os seus comportamentos, de forma que supram as suas expectativas, românticas, derivada dos filmes que você tanto assistiu e assiste. 
   Viver requer mais leveza, menos rigidez, esta que estou tão acostumada. É um desafio, então, eu tentar me arriscar a viver dessa outra forma, e torná-la meu piloto automático. Sentir-me incluída no mundo, participante ativa das minhas vivências, e personagem importante nas vivências de algumas pessoas. Apesar dessa resistência resultado do meu passado, dessa inércia, nunca estive tão feliz em estar vivendo. Estar vivendo, participando, errando, me perdoando, perdoando os outros, vivendo. Sendo eu mesma, autêntica, particular, e vivendo. Sendo presente, participante, e não mais meramente a platéia.  
   Eu sempre me senti alheia desse mundo, e hoje luto, dia após dia, para deixar de me sentir assim.

27/05/2018

Conclusão



   É isto. 
   É bizarro pensar em tudo o que eu fiz, e que eu finalmente eu fiz tudo. Tudo.
   É estranho, sei lá, e por mais que doa, eu fiz tudo.
   Por mais que as coisas não tenham saído como o planejado, eu estou satisfeita
   (por mais que nesse exato momento eu não sinta isso).

   É, sim, eu queria uma resposta. Nem que fosse um fora, uma negativa, ou alguma pequena consideração por eu ter aberto o meu coração.
   Mas, é, infelizmente ela não veio. E possivelmente não virá.
   Agora basta eu lidar com essa "resposta" e seguir em frente. Seguir em frente.
   Por que isso parece tão difícil? Por que eu demoro tanto para me desencanar das pessoas?
   Eu me apego a momentos, a situações, a sentimentos, a confusões. Se machuca tanto, por que eu não consigo simplesmente me desapegar dessas coisas?
   Por que eu sinto que eu não quero me desapegar dessas coisas?

   Eu sei que uma hora vai passar, sabe? Porque as coisas sempre passam.
   Mas eu só queria que isso acontece agora, nesse instante. Nesse exato momento.
   Sou ansiosa, quero pular processos, quero estar sempre bem
   (e eu sei que isso não é possível, não é saudável).

   Hoje eu escutei uma coisa que me fez total sentido:
   "Uma pessoa pode ser legal, mas ela pode não ser legal para você."

   A culpa não é sua, sabe?
   Definitivamente, a culpa não é sua.
   As vezes as coisas não acontecem como a gente quer que aconteçam.
   E está tudo bem também.
   Está tudo bem!

   A culpa não é dela, a culpa não é sua. 
   A culpa não é de ninguém!
   Só não aconteceu porque não era para acontecer.
   E é isto. Somente isto.
   Exclusivamente isto.

   É isso.

06/05/2018

Quando você se apega a uma memória


   Eu senti uma coisa dentro de mim que eu pensei que eu demoraria para sentir: uma pontada de satisfação. Satisfação? De estar vivendo tudo isso. Eu já olhei para aquela foto em que nós dois aparecíamos juntos mais de cem vezes e só agora é que eu sinto que consegui enxergá-la diferente: algo mudou dentro de mim. Eu olho para aquela foto e finalmente consigo sentir uma fraçãozinha de paz, substituindo a angustia e a vontade de rir sarcasticamente por toda aquela situação vivenciada, que subiam sobre a minha garganta todas as outras vezes que eu havia a olhado. 
   Ela é uma pessoa muito bonita, muito atraente, e o momento foi engraçado, eu estava nervosa, não conseguia parar de sorrir, não conseguia manter meus olhos sobre ele por estar extremante envergonhada, desviava-o muitas vezes para as outras pessoas, para o chão, para o céu. Eu estava totalmente constrangida por estar vivendo toda aquela situação porque eu nunca havia imaginado que aquilo realmente pudesse acontecer. Aquilo estava acontecendo mesmo de verdade? Porque parecia tanto com o sonho que eu havia tanto tido por tanto tempo (não só com ele, mas com outras pessoas que haviam "aparecido" na minha vida). E a risada dele era tão maravilhosa, carregava uma paz tão gostosa. E a satisfação que inflava a minha alma quando eu percebia que ele ria com as coisas que eu falava era imensurável. Ele realmente queria me beijar, saca isso? Eu não tinha sacado até o momento h.
   E foi muito bizarro. Senti algo que eu nunca havia sentido antes: eu queria aproveitar aquele momento com todas as forças. Eu estava muito atraída por aquele cara, e tanto que eu não consegui conter a minha alegria e o abracei. Foi um dos momentos mais gostosos que eu já passei, e só de lembrá-lo eu sinto um frio na barriga. Eu estava muito atraída por aquela pessoa.
   E eu criei expectativas, mesmo não querendo. Eu não consegui me controlar, e eu sinceramente acho que não seria possível controlar esses pensamentos que me invadiram logo que tudo passou. Eu estava no ônibus e revivi aquele momento no mínimo umas cinco vezes seguidas, e eu não conseguia tirar o sorriso do meu rosto. Tudo ainda parecia um sonho. E eu havia sido a protagonista de tudo aquilo.
   Confesso que as expectativas, pouco a pouco, foram me consumindo, até que eu não conseguisse mais não pensar nele. E a ansiedade se instaurou dentro de mim. Eu não conseguia parar de falar dele, não conseguia parar de pensar nele, não conseguia conter a minha vontade de me esbarrar com ele e poder cumprimentá-lo, poder conversar mais com ele, conhecer ele. Mas ai está o problema, a sementinha de toda a enrascada na qual eu estava me enfiando, sozinha: eu estava tentando estender aquele momento vivido tão intensamente por mim para outros, buscando justamente poder sentir novamente toda aquela energia que eu havia sentido antes.
   E eu corri atrás dele, como nunca corri atrás de ninguém: cumprimentei ele quando talvez ele fosse passar reto por mim, tentei usar as redes sociais para mostrar que eu realmente tinha interesse em conhecer mais ele, em conversar com ele, mas ele não fez nada. E, por fim, me arrisquei ainda mais e abri o meu coração para uma das pessoas que julgo ser uma das mais próximas dele, e eu fiquei ansiosa pela resposta dele. E hoje, contudo, eu vejo que ele já tinha me dado a resposta que eu tanto precisava. 
   Só agora eu estou realmente sentindo essa resposta, que julguei por muito tempo não existir porque eu não queria mesmo acreditar nela: ele não tinha interesse em estender aquele momento vivido por nós dois. E, se for pensar, a intensidade daquilo provavelmente foi diferente para nós dois. Eu coloquei expectativas demais, e eu não me sinto culpada por isso.
   Eu não sou culpada por isso: é totalmente normal fazer isso. Ele é uma pessoa com uma energia tão boa, eu estranharia se eu não me atraísse por ele. E eu entendo, agora, o porquê de eu ter querido tanto que todas essas expectativas se concretizassem: tudo parecia tão possível. 
   Hoje eu olho para essa foto e vejo que eu exagerei, e ai que está: isso não é um problema. Certo, isso realmente me causou um problema, mas eu justificaria isso pelo seguinte fato: eu nunca havia vivido tudo isso, então possivelmente eu não saberia como encarar essa situação, e isso é sempre o que mais incomoda: quando eu me vejo impotente diante da realidade. Eu exagerei sim, mas porque eu vivi aquilo de uma forma tão intensa que eu queria estender aquele momento. Eu sinto demais, e isso nunca vai ser um problema, ou pelo menos nunca deve ser. 
   O sorriso dele é tão lindo. Ele é uma pessoa tão linda, por fora e provavelmente por dentro também. E eu espero mesmo poder conhecer ele mais um pouquinho, porque ele parece realmente ser uma pessoa com uma energia tão boa. Mas eu não preciso disso, de me sentir como uma perdedora. De me sentir inferior a ele: eu não sou. Ele não tem culpa, e muito menos eu tenho culpa. 
   Hoje você possivelmente só tem olhos para ele, mas ele não é a única pessoa que você vai achar atraente nesse mundo, mulher, então pare de te se sentir tão machucada com o "não" dele. E ele claramente não é a única pessoa que vai querer te beijar. E com certeza você passará por outros momentos como esse, então se acalme. Deixa de querer ser radical, você consegue lidar com toda essa situação: você está conseguindo lidar. Talvez você não acredite em mim, mas você está conseguindo lidar com tudo isso! Dê mais créditos a você e pare de se sentir como uma pessoa azarada, porque você não é. 
   E da próxima vez que eu olhar para ele, espero que eu consiga não me sentir mais tão mal. Eu espero que eu consiga olhar para ele e vê-lo como uma pessoa normal, como ele realmente é. Nem mais, nem menos: normal. E eu não preciso tentar me fazer esquecer daquele momento: jamais. Eu só preciso entender, compreender com o meu coração, que aquilo aconteceu sim, mas ficou somente ali: limitado dentro de uma caixinha que eu quero manter sempre na minha memória, porque foi um momento tão bom! 
   E ao olhar essa foto, e ver como ele sorri e me lembrar de tudo o que aconteceu, eu sinto que estou finalmente conseguindo enxergar tudo isso com um outro olhar. Afinal, ainda bem que eu vivi tudo isso, todas essas emoções! Ainda bem...

24/01/2018

Sobre o meu orgulho por você


   Eu acho que estou com medo. Esperar ele me responder. Por que para mim isso me parece mais uma tortura? Estar nesse dilema entre querer que ele me responda imediatamente ou querer que ele tenha caído no sono e que só visualize no dia seguinte. Pois bem, pode ter certeza de que ele visualizou na mesma noite, enquanto você estava se remoendo de ansiedade, resumindo isso tudo. 
   Somente saiba que, independentemente da resposta dele, você é uma mulherão da porra. Sim, você é isso mesmo, com todas essas palavras. M-U-L-H-E-R-Ã-O D-A P-O-R-R-A. Porque você tomou atitude. E isso, minha cara, é uma baita de um tapão na cara da Mayara de dois anos atrás. Um tapa na cara da Mayara de um ano atrás, que estava se remoendo de raiva porque tinha conseguido uma foto horrível com uma professora que te marcou tanto num dos momentos mais importantes da sua vida. Sabe, ontem você estava se martirizando por conta de uma péssima foto, que na real nem tão péssima ficou: hoje eu olho para a foto e fico tão feliz. E, hoje, você tomou uma atitude. E que atitude.
   Independente da resposta dele, saiba que vai ficar tudo bem. Cara, independente da resposta dele, outros caras melhores aparecerão na sua vida, e pode apostar que te farão bem também, senão mais. Ele pode ser uma pessoa incrível, com todas as qualidades dele, mas você sabe o ponto fraco dele. Ou pelo menos o ponto fraco dele para você. E, de novo, o que for para ser, será. E o que não for, não será, e está tudo bem também!
   Saiba que só de você ter se desafiado a abrir o jogo com ele já é um baita de um desafio para você, que você conseguiu superar. Eu, se fosse a Mayara de três anos atrás e estivesse olhando para você agora, não acreditaria que eu me tornaria nesse mulherão em quem você está se tornando. Sério, meus olhinhos estariam brilhando de admiração por ela: eu estou completamente surpresa e admirada por essa decisão, por essa atitude. 
   E acredite, mais desafios como esse virão. Mas pode ter certeza de uma coisa: você está crescendo, e a cada dia que passa eu te admiro mais e mais. Você está no caminho certo, mais do que certo, e eu estou aqui, do seu lado. E olha, não queria estar em nenhum outro lugar senão vendo essa menina crescer tanto e se tornando esse mulherão que hoje eu já consigo ver. 
   Sabe aquele dia que você estava esperando ver você mesma se tornando toda independente, segura de si, sem medo de tomar iniciativas, consciente de que as únicas coisas que estariam pesando na sua consciência seriam as coisas que você fez, as atitudes que você tomou, as palavras que você disse para uma outra pessoa (e não em um diálogo/monólogo interno), e não mais as coisas que não aconteceram? Pois é, esse dia está chegando, eu estou sentindo. E hoje você está infinitas vezes mais próxima desse dia do que ontem. 
   Eu só tenho orgulho de você, sabia?

Um texto difícil de ser postado, que eu escrevi num 
dia difícil, quando eu ainda estava abalada demais.
Mas sinto que hoje eu já posso publicá-lo.

10/01/2018

2017: um ano difícil, mas surpreendente

   2017 foi um ano engraçado. Foi um ano em que eu esperava muitas coisas: que fosse um ano pesado, exaustivo, frustrante, desafiador. E, bom, realmente foi.
   O ano começou com a seguinte mensagem: "Você não passou na faculdade dos sonhos". Depois de um mês, sofrido, de espera, saia os resultados das minhas provas: primeiro o do ENEM, depois o da UNESP. E, nossa, foi uma bomba. Uma bomba poderosa, que conseguiu me atingir de uma forma que eu não sabia que era possível. 
   Eu lembro que eu estava pessimista, ao final do meu primeiro ano de vestibulanda, do meu desempenho dos vestibulares, contrariando a todos que diziam que eu passaria. E, no entanto, finalmente observar o meu resultado final foi devastador, decepcionante. Mais ainda, sentir aquilo, sentir aquela nota? Sentir como se você tivesse perdido uma batalha que havia sido tão árdua e que você havia dado todas as suas forças? Foi terrível. Foi frustrante. Foi destruidor.
    Eu nunca havia me sentido tão incapaz na minha vida. 
   Ainda, pior ainda foi ver a aprovação das outras pessoas. E o ego me maltratando a todo instante. "Olha só, todos eles passaram e menos você, viu? Olha como você é burra". E o que me veio, primeiramente, foram todos aqueles anos em que havia me dedicado aos estudos, em que eu havia dito para mim mesma que eu havia me esforçado tanto, abdicado uma possível (e idealizada) "vida social"  para me empenhar aos estudos, especialmente em 2016, e que não haviam valido para nada. Nada. Haviam sido um desperdício total. 
   E depois, o questionamento: por que? Por que eu não havia conseguido? Onde eu havia errado?  
   Todas as pessoas ao meu redor dizendo que haviam passado, todos aqueles comentários nos perfis dos futuros universitários parabenizando-os pela conquista, especialmente os dos meus antigos professores, que antes haviam me dito que eu era capaz. Eu. Por que não eu? Foi o meu principal questionamento: por que não eu?
   Pois bem, hoje eu sei a resposta para ela: pois eu não estava preparada. Intelectualmente, mas especialmente psicologicamente, socialmente, internamente.
   Foram tantas coisas que eu aprendi em 2017, tantas coisas que mudaram a minha forma de ver o mundo. Aconteceram-me tantas coisas nesse ano, tantas coisas que me acrescentaram tanto: confiança, determinação, força, e que me produziram aprendizados tão importantes! E que eu tenho a absoluta certeza de que, caso eu realmente tivesse passado no vestibular, eu talvez não os teria alcançado (ou teria, mas de uma forma mais tortuosa e sem o mesmo impacto que eles me produziram).
   Primeiramente, percebi que ser vestibulanda, acima de tudo, é ter a consciência de que os vestibulares não são justos, e portanto, a última coisa que eles fazem é avaliarem o nosso conhecimento (afinal, são muitos os tipos de conhecimentos que existem no mundo, e não são simplificados somente ao raciocínio lógico e capacidade de decorar conteúdos teóricos e didáticos). Dessa forma, estudar para passar na faculdade, infelizmente, não é resumido a entender toda a matéria do universo, e sim de analisar e perceber a maneira como cada vestibular cobra seu respectivos conteúdos, mesmo que muitos deles sejam totalmente irrelevantes para a sua futura vida acadêmica (ou para a sua futura vida mesmo).
    Segundo:  aprendi melhor a me relacionar com as pessoas ao meu redor, ou melhor, dei um grande passo para perder a minha fobia social (coisa que eu percebi que eu tenho faz um bom tempo). Foi até engraçado, na verdade, a maneira como eu me aproximei da primeira pessoa no cursinho, ambiente na qual a última coisa que eu esperava era conhecer pessoas tão incríveis! Pois eu lembro que eu fiquei mais ou menos uma semana sem conversar com ninguém, com medo, com receio de me acharem estranha, medonha, sem graça, desinteressante. Uma semana quebrando a cabeça, tentando elaborar um plano mental para poder me aproximar de alguém, assim como eu havia feito no ano anterior. E pois é, novamente eu me peguei tentando controlar coisas incontroláveis: a vida. Aliás, de novo eu fui surpreendida: no momento em que eu menos esperava eu puxei conversa com uma menina que estava sentada na mesa da cantina e que aparentava ser muito simpática, já que eu havia chegado cedo demais ali (assim como o ano inteiro, risos). E bem, hoje eu a considero uma das pessoas mais meigas, mais positivas e boas da minha vida, e que tenho tanto orgulho de ter conhecido!
   Isso somando ao fato que, ao pedir informações a uma então colega da minha classe no ponto de ônibus perto do cursinho, acabei por conhecer uma das pessoas que mais me fariam dar risada no ano inteiro: uma pessoa incrível, super do bem, e com quem eu criei uma intimidade tão grande em um intervalo de tempo tão pequeno! E isso foi incrível.
   Terceiro: comecei a me permitir entender que eu não sou perfeita e, estando especialmente no cursinho, eu não saberia todas as respostas do universo (na realidade, em qualquer lugar, nunca saberei, porque eu sou humana, não uma máquina). Portanto, tirar dúvidas com os professores ou inclusive com as próprias colegas não é a coisa mais humilhante da vida, pelo contrário. No cursinho a maioria dos professores foram tão incríveis que muitas vezes eles se sentiam lisonjeados em me ajudar. E essa bondade, essa empatia, esse acolhimento, num momento onde tudo o que queremos fazer é chorar e chorar e chorar por não conseguirmos saber de tudo, é tão bonito. É tão humano (ironicamente, em um ambiente e em um contexto tão desumano como o de estudar loucamente para fazer uma única prova).
   Em 2017 tive várias aprendizados, entre eles os que irei citar agora: nesse ano, eu percebi que existem pessoas tóxicas na minha vida e que eu tenho o total direito de querer tirá-las da minha vida, sem egoísmo, sem arrogância, sem ser a cuzona da história (porque na verdade mesmo as cuzonas mesmo foram elas, convenhamos). Comecei também a amar e a incorporar a minha forma de vestir sem medo de opiniões alheias, criando o meu próprio estilo. Em 2017, assumi descaradamente a minha atração por pessoas, por homens, porque eu também sou humana (inclusive por um professor, e meu deus, como foi difícil assumir isso). Assumi que eu tive crush por mais de três anos em um menino que nunca me notou, pela primeira vez, de uma forma descontraída, e isso foi engraçado e desafiador.
   Em 2017, consegui conversar ainda mais com mais pessoas sendo exatamente eu mesma, e essa sensação é indescritível. Em 2017, paquerei e beijei um crush pela primeira vez (e isso é sensacional!). Em 2017, dancei sem ter vergonha se eu estava parecendo um boneco de posto, e percebi, inclusive, o quanto a música mexe com a minha alma (me fazendo entrar em transe sem sequer ter ingerido alguma coisa). Em 2017, mudei completamente a minha forma de pensar sobre várias coisas, e percebi que eu preciso parar de ser uma esponja e necessito aprender as coisas pelas minhas próprias experiências, e não pelas alheias (porque tudo depende do contexto vivenciado, tudo é relativo!).
   Em 2017, consegui, pela primeira vez, me abrir para tentar me relacionar com alguém. E bem, nesse ano também tive a minha primeira desilusão amorosa; mas apesar disso, de ele ter me feito muito muito muito mal por ter me feito quebrar a cara e ter perdido um tempo enorme me iludindo, ele me fez bem também. Me fez sentir-me confiante, desejável, acolhida como eu nunca havia me sentido por nenhum cara. Foi a primeira vez que eu consegui conversar com um garoto sem sentir-me paranoica, deixando as coisas rolarem no seu devido tempo (mesmo que, no fim, isso tudo não tenha saído do ambiente virtual).
   Em 2017, fui totalmente honesta sobre um dos meus maiores problemas com a minha psicóloga, e que eu não tinha sequer conhecimento (por isso que eu amo tanto essa profissão!). Em 2017, aprendi a dizer "não" e a respeitar o meu corpinho exatamente da forma como ele merece (afinal ele é meu templo sagrado, não?). Em 2017, descobri o meu amor incondicional por gatos, me fazendo perceber, de novo, que gostos e preferências são relativos. Em 2017, reli o meu livro favorito da vida (e é um livro de vestibular, olha só). Em 2017, puxei conversa com dois crushes diferentes no cursinho (e como foi prazeroso conseguir ter feito isso!).
   Em 2017, ri tanto e não me preocupei se eu estava sendo ridícula rindo daquela forma, afinal rir é a melhor coisa do mundo (mas depois de abraçar, é claro). Em 2017, descobri que eu tenho uma amiga que é mais que minha amiga: é minha porto seguro, meu ombro quando eu preciso chorar, minha máquina de ouvir xingamentos quando eu quero somente estraçalhar a cabeça de alguém. Em 2017, aprendi a amar o meu corpo, os meus olhos, a minha sobrancelha, o meu nariz, do jeitinho que ele é: maravilhoso. Em 2017, eu percebi, percebi mesmo, que um das minhas maiores neuroses em mim mesma não passava de invenção, i-n-v-e-n-ç-ã-o, porque o meu corpo é perfeitinho do jeito que ele é e, alias, descobri também que alergia é alergia, só alergia, e não doença (infecciosa e nojenta, como meu ego sempre me falou a minha vida toda).
   Em 2017, percebi que cada coisa tem o seu devido tempo e, portanto, o fato de eu não ter passado de primeira no vestibular não me faz uma perdedora, pelo contrário: o fato de eu ter me permitido encarar toda essa jornada exaustiva e dolorida de estudos, tanto fisicamente como emocionalmente, me faz uma vencedora ainda maior, porque todo o meu esforço, que só eu sei o quanto ele existiu, vai ser recompensado. E aí sim vou me achar a maior vitoriosa do mundo, sensação que todo mundo merece sentir.
   Em 2017, aprendi que todo o meu contexto me fez ser o que eu sou, induzindo na construção das minhas barreiras, dos meus obstáculos, das minhas bolas de neve, das minhas inseguranças, mas também da minha determinação e dos meus valores mais profundos. E, portanto, os meus problemas não foram causadas por minha culpa, nunca foi. E, em 2017, eu também descobri forças em mim que quer desconstruir todos os probleminhas que afetaram a minha vida, social e individual, por tanto tempo: abraçando o meu passado, com todas as lágrimas e sendo a irmã mais velha que eu merecia ter sido para mim naqueles momentos tão obscuros, e corrigindo também posturas que me fizeram tão mal e que não as quero mais.
   Demorou para eu conseguir concluir esse texto, por motivos de vestibulares no início do ano e psicológico para conseguir me ordenar internamente, mas acho que estou finalmente conseguindo. 2017 foi um ano pesado, exaustivo, frustrante e desafiador, como eu disse inicialmente; mas foi um ano também tão intenso, tão grande, tão desafiador (no bom sentido), tão cheio de amor, tão cheio de aprendizados e experiências, tão cheio de desconstruções, tão humano, que eu não conseguiria sintetizá-lo em poucas palavras.
   2017 foi um ano necessário para a minha vida pessoal, e sem dúvidas seria um ótimo fechamento para esse ciclo que vivenciei por todo esse ano (mas que pareceu, sem dúvidas, ter se passado por muito mais tempo). Mas, como uma das coisas que eu aprendi nesse ano também foi de tentar aceitar as coisas que vêm para a gente, mesmo sendo inicialmente extremamente ruins, para tentar absorver delas as coisas mais boas que podem nos oferecer; caso isso não seja um encerramento, está tudo bem também.
    Eu somente sou intensamente grata por todo esse ano, turbulento, mas inesquecível, e espero que 2018 também me traga coisas boas. Que em 2018 eu continue tendo essa visão otimista que eu venho tentando desenvolver, e que eu consiga orgulhar as pessoas que eu mais amo nesse mundão inteiro (mesmo sabendo que eles já tem orgulho de mim, e essa sensação não tem preço).
   E que, por fim, em 2018 eu sinta ainda mais orgulho da pessoa que eu estou me tornando.